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Dedico este texto ao querido, distante
e sempre próximo, Mestre Gláucio Veiga, que me
ensinou a amar Proust, Kafka e Balzac entre as inumeráveis conversas sobre Kant, Hegel e Marx. Os dois pequenos ensaios iniciais foram publicados
no Diário de Pernambuco em 10 e 31 de julho de 1981, quando afrontava,
pela segunda vez, a Busca sem fim de Proust, tendo, em meu primeiro contato
em 1975 me provocado um horror apaixonado que não deixou registros
maiores que simples notas no próprio livro. Esses ensaios não
honram uma legítima leitura da Busca e representam uma verdadeira
derrota diante de pontos de partida que retinham a obra dentro de teorias
insuficientes para deixarem fluir a escritura e seu vazio germinativo:
antolhos de uma literatura trivial e rasteira criando olhos
cegos como se vissem. Dizem, esses curtos artigos, somente o óbvio,
o culturalmente aceito e o esperado: da voltas e não entra: repete
e não sabe: reproduz e não se dá conta. Pude somente
ler a Busca em sua plenitude depois de 1989 (a segunda leitura da Comédia
Humana em 1988 parou no quinto volume), quando iniciei a inscrição
de Babel (Revan, Rio de Janeiro, 2001) e a literatura tomou
outro e inesperado rumo, queimando todas as páginas anteriores,
todas as teorias, saberes e práticas. Como Proust está no
centro daquilo que considero literatura, e tenho retomado velhos escritos
sobre a questão, voltar às minhas próprias concepções
sobre Proust é retomar fios perdidos, caminhos destraçados,
leituras sempre recomeçadas e reelaboradas, para uma escritura
que se fará sempre contra os arredores, contra o tempo e contra
a língua e, se der tempo, ainda se fará maior que seus inescapáveis
limites, limites da virtualidade, não da Língua, da Cultura,
do País. Além disso, acrescento algumas notas bordadas num
imediato sem busca, sem inteligência, sem vergonha, envolvido como
estou na teia ridícula dos gabinetes passageiros e das conversas
vulgares: talvez Proust seja ligeira mas profunda tentativa de fuga, principalmente
porque nessa noite escura só resta literatura, a mesma de Proust.
O ROMANCE EM
PROUST
O papel do romancista em Proust prende-se a relação
objeto-consciência. A consciência proustiana não estabelece
um contato direto com o objeto, que permanece inacessível, na sua
matéria, a um aprofundamento intelectivo. O objeto se dissolve
antes que haja este contato. Os sentidos são impotentes para esta
operação que se fará, não na atividade sensória,
mas através do artista, que funde, como um todo perceptível,
a interioridade à exterioridade, formando com isso a imagem literária
que possibilita a posse do objeto na essência. A imagem literária
em Proust é o único elemento capaz de tornar translúcido
a opacidade do objeto.
A vida torna-se secundária enquanto a criação ao congelar o tempo e transforma-lo em coisa palpável, e real possibilidade de aprofundamento, toma o lugar da vida; os acontecimentos cotidianos, ao serem percebidos, escondem o seu interior, enquanto a imagem literária desencadeia emoções e aventuras que, em pouco tempo, coagulam uma vida inteira nelas. Em Proust o Dramático só é real à consciência enquanto criação. Proust recria a vida ao desprezar a vida. O personagem proustiano não é real, real é o que sentimos, o que experimentamos, mentalmente, desse personagem. O achado do romancista foi substituir, no objeto, as partes inacessíveis por uma totalidade racionalizável, construindo a partir daí uma ontologia que, ao admitir o tempo como dinâmica que impossibilitaria a consciência de chegar até a coisa, se fundamenta na consciência como recriadora do mundo. Mas em Proust existe uma força que arrasta a consciência ao mundo, como que para ultrapassá-la e chegar até às coisas. Nesse momento, aparentemente, existe uma igualdade entre o interior que percebe e a coisa percebida. Um frágil momento. Encontra-se realmente o eco da alma, o que projetou sobre as coisas e não o exterior. Encontra-se a desilusão, pois se esperava um mundo em combinação com a consciência e não a dissociação entre a criação dele com o mundo. A temporalidade
proustiana é depositada em dois compartimentos
da memória. O primeiro, é o da memória voluntária.
Nela, Combray estava incompleta, como se consistisse apenas em dois
andares ligados por uma estreita escada, e como se nunca fosse mais que
sete horas da noite. O restante permanecia na treva, escondido e
morto. O que era lembrado vinha da inteligência que
não conserva, segundo Proust, a plenitude vivida. A consciência,
desse modo, é impotente para a posse da vida, sendo apreendida
através da obra de arte, tendo como fonte primária a memória
involuntária.
A consciência proustiana é a vergonha de ser autônoma, de ser ordenadora, e chave mestra do recriar fecundo e constante do mundo humano. Ela não é reflexo do ser social nem social na sua estrutura; é, antes de tudo, o boneco sem forças do inconsciente, que não entre em relação com o mundo físico de tempo universal, mas apenas com o tempo psicológico, pessoal. Por isso o romance de Proust tem como personagens e paisagens, a vida do homem Proust. Ele é o próprio romance, a reinstauração estática da dinâmica desprezada da vida. Proust nos fala sobre a crença céltica da transmigração das almas, daqueles que amamos e perdemos, para objetos e animais, e que para libertarmos essas entidades, basta passar por perto ou tocá-lo, quebrando o encanto. Libertadas por nós, venceram a morte e voltam a viver conosco. Essa lenda é associada ao nosso passado, àquilo que está nas mãos da memória involuntária, e apenas será nosso quando entrarmos em contato com ela. A beleza da obra de Proust está nessa atmosfera de sonho revivido pela Arte com maestria inigualável. A Madeleine proustiana é a passagem, o caminho entre o consciente e o inconsciente. É a coisa exterior que faz a ligação entre o percebido presente e aquele percebido esquecido por vivências mais fortes e presentes. No momento em que Proust toca a Madeleine misturada ao chá, a essência de Combray, a totalidade perdida é reinstaurada. A ligação entre dois mundos é feita, mas não sem um esforço do consciente, e uma sensação de alegria e bem-estar faz com que cesse a determinação do Ser, fadado à morte, sem saída possível da deterioração constante, e final absoluto como Ser-no-Tempo, a não ser, pela fixação desse universo pessoal fazendo da domesticação do tempo, obra de arte. Transformar a dinâmica rebelde do mundo em estática artística é papel de Proust e da arte como salvação individual. Mas a volta dessas lembranças perdidas não induz apenas a uma sensação exploratória por parte da vontade, mas também um criar e recriar desse momento inconsciente, agora consciente. Essa vontade não se satisfará com o pouco dado pelo toque do objeto, mergulhando em busca do todo escondido e o desancorará para luz.
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