PROUST EM DOIS TEMPOS: AS MIRAGENS DO TEXTO


Alberto Lins Caldas   
Professor de Teoria da História - Centro de Hermenêutica – UFRO   
caldas@unir.br   

 


 
Dedico este “texto” ao querido, distante e sempre próximo, Mestre Gláucio Veiga, que me
ensinou a amar Proust, Kafka e Balzac entre as inumeráveis conversas sobre Kant, Hegel e Marx.

Os dois pequenos ensaios iniciais foram publicados no Diário de Pernambuco em 10 e 31 de julho de 1981, quando afrontava, pela segunda vez, a Busca sem fim de Proust, tendo, em meu primeiro contato em 1975 me provocado um horror apaixonado que não deixou registros maiores que simples notas no próprio livro. Esses ensaios não honram uma legítima leitura da Busca e representam uma verdadeira derrota diante de pontos de partida que retinham a obra dentro de teorias insuficientes para deixarem fluir a escritura e seu vazio germinativo: antolhos de uma “literatura” trivial e rasteira criando olhos cegos como se vissem. Dizem, esses curtos artigos, somente o óbvio, o culturalmente aceito e o esperado: da voltas e não entra: repete e não sabe: reproduz e não se dá conta. Pude somente ler a Busca em sua plenitude depois de 1989 (a segunda leitura da Comédia Humana em 1988 parou no quinto volume), quando iniciei a inscrição de “Babel” (Revan, Rio de Janeiro, 2001) e a literatura tomou outro e inesperado rumo, queimando todas as páginas anteriores, todas as teorias, saberes e práticas. Como Proust está no centro daquilo que considero literatura, e tenho retomado velhos escritos sobre a questão, voltar às minhas próprias concepções sobre Proust é retomar fios perdidos, caminhos destraçados, leituras sempre recomeçadas e reelaboradas, para uma escritura que se fará sempre contra os arredores, contra o tempo e contra a língua e, se der tempo, ainda se fará maior que seus inescapáveis limites, limites da virtualidade, não da Língua, da Cultura, do País. Além disso, acrescento algumas notas bordadas num imediato sem busca, sem inteligência, sem vergonha, envolvido como estou na teia ridícula dos gabinetes passageiros e das conversas vulgares: talvez Proust seja ligeira mas profunda tentativa de fuga, principalmente porque nessa noite escura só resta literatura, a mesma de Proust.

O ROMANCE EM PROUST


O papel do romancista em Proust prende-se a relação objeto-consciência. A consciência proustiana não estabelece um contato direto com o objeto, que permanece inacessível, na sua matéria, a um aprofundamento intelectivo. O objeto se “dissolve” antes que haja este contato. Os sentidos são impotentes para esta operação que se fará, não na atividade sensória, mas através do artista, que funde, como um todo perceptível, a interioridade à exterioridade, formando com isso a imagem literária que possibilita a posse do objeto na essência. A imagem literária em Proust é o único elemento capaz de tornar translúcido a opacidade do objeto.

A vida torna-se secundária enquanto a criação ao congelar o tempo e transforma-lo em coisa palpável, e real possibilidade de aprofundamento, toma o lugar da vida; os acontecimentos cotidianos, ao serem percebidos, escondem o seu interior, enquanto a imagem literária desencadeia emoções e aventuras que, em pouco tempo, coagulam uma vida inteira nelas. Em Proust o Dramático só é real à consciência enquanto criação. Proust recria a vida ao desprezar a vida. O personagem proustiano não é real, real é o que sentimos, o que experimentamos, mentalmente, desse personagem.

O achado do romancista foi substituir, no objeto, as partes inacessíveis por uma totalidade racionalizável, construindo a partir daí uma “ontologia” que, ao admitir o tempo como dinâmica que impossibilitaria a consciência de chegar até a coisa, se fundamenta na consciência como recriadora do mundo.

Mas em Proust existe uma força que arrasta a consciência ao mundo, como que para ultrapassá-la e chegar até às coisas. Nesse momento, aparentemente, existe uma igualdade entre o interior que percebe e a coisa percebida. Um frágil momento. Encontra-se realmente o eco da alma, o que projetou sobre as coisas e não o exterior. Encontra-se a desilusão, pois se esperava um mundo em combinação com a consciência e não a dissociação entre a criação dele com o mundo.

PROUST E A MEMÓRIA

A temporalidade proustiana é “depositada” em dois “compartimentos” da memória. O primeiro, é o da memória voluntária. Nela, Combray estava incompleta, como se “consistisse apenas em dois andares ligados por uma estreita escada, e como se nunca fosse mais que sete horas da noite”. O restante permanecia na treva, escondido e “morto”. O que era lembrado vinha da inteligência que não conserva, segundo Proust, a plenitude vivida. A consciência, desse modo, é impotente para a posse da vida, sendo apreendida através da obra de arte, tendo como fonte primária a memória involuntária.

A consciência proustiana é a “vergonha” de ser autônoma, de ser ordenadora, e chave mestra do recriar fecundo e constante do mundo humano. Ela não é reflexo do ser social nem social na sua estrutura; é, antes de tudo, o boneco sem forças do inconsciente, que não entre em relação com o mundo físico de tempo universal, mas apenas com o tempo psicológico, pessoal. Por isso o romance de Proust tem como personagens e paisagens, a vida do homem Proust. Ele é o próprio romance, a reinstauração estática da dinâmica desprezada da vida.

Proust nos fala sobre a crença céltica da transmigração das almas, daqueles que amamos e perdemos, para objetos e animais, e que para libertarmos essas entidades, basta passar por perto ou tocá-lo, quebrando o encanto. “Libertadas por nós, venceram a morte e voltam a viver conosco”. Essa lenda é associada ao nosso passado, àquilo que está nas mãos da memória involuntária, e apenas será nosso quando entrarmos em contato com ela. A beleza da obra de Proust está nessa atmosfera de sonho revivido pela Arte com maestria inigualável.

A Madeleine proustiana é a passagem, o caminho entre o consciente e o inconsciente. É a coisa exterior que faz a ligação entre o percebido presente e aquele percebido esquecido por vivências mais fortes e presentes. No momento em que Proust toca a Madeleine misturada ao chá, a essência de Combray, a totalidade perdida é reinstaurada. A ligação entre dois “mundos” é feita, mas não sem um esforço do consciente, e uma sensação de alegria e bem-estar faz com que cesse a determinação do Ser, fadado à morte, sem saída possível da deterioração constante, e final absoluto como Ser-no-Tempo, a não ser, pela fixação desse universo pessoal fazendo da domesticação do tempo, obra de arte. Transformar a dinâmica rebelde do mundo em “estática” artística é papel de Proust e da arte como salvação individual.

Mas a volta dessas lembranças perdidas não induz apenas a uma sensação exploratória por parte da vontade, mas também um criar e recriar desse momento inconsciente, agora consciente. Essa vontade não se satisfará com o pouco dado pelo toque do objeto, mergulhando em busca do todo escondido e o desancorará para luz.

OUTRO TEMPO/OUTRO PROUST

  1. -
    Proust não escreveu “Em Busca do Tempo Perdido” para “contar sua vida”, seu tempo, seu mundo: mas para inscrever, num vazio denso, num deslimite de vácuo, no impreciso de um não existir, precisas obsessões, precisos nós, precisas dobradiças. A Busca torna “sua história”, “seu mundo”, “seu tempo”, artifícios, coberturas, iscas carregadas de desejo, estetizações em volta de núcleos de pura repetição. Em volta dessas obsessões cresce uma vegetação textual luxuriante: uma proliferação viral: uma infestação bacteriana: uma erupção: isso é o texto proustiano: algo que cresceu em torno de tensões criando pontes entre outras tensões e seus casulos, dando-nos a sensação de “texto corrido” (“vasos comunicantes”: a passagem do líquido, do gás, do magma, da eletricidade, do silêncio, do nada em busca de tudo): ilusões da repetição que escorrem na diferença. Sua meta literária é vomitar esses nós; é esconder esses nós; é ex-pôr esses nós; é dobradiçalizar esses nós: sua magia ad-vem desses artifícios miraculosos. Antes de Proust praticamente ninguém levou este “método” ao paroxismo da segregação absoluta em torno de quase nada: uma cadeia de obsessões que não cessa e no fim, o Oroboro do texto, morde o rabo e começa a se devorar novamente, sempre diferente, numa repetição sem fim e tão magistralmente orquestrada que praticamente não aparece, pois o Oroboro morde outro rabo, outra cobra entre cobras envolvidas numa orgia semiótica.
  2. - A Busca não é uma leitura que exija um tempo comum, o tempo da leitura de um livro: exige uma vida (exigiria vidas!). É a leitura de uma existência, dedicada a tudo que uma existência precisa, mas com a Busca sempre voltando, sempre indo, sempre mergulhando, sempre sendo re-vista. Na verdade ninguém lê a Busca: não se pode jamais se dizer que a Busca foi lida.
  3. - Não há, na Busca, o tempo: é tanto uma ilusão do narrador, uma pretensão do homem Proust quanto dos teóricos e críticos, levados por aquilo que diz o texto enquanto algo manifesto: sua função é, assim como a história, as tramas, servir de isca para desviar, nos levando, fisgados, para outro lugar que o leito encantatório das palavras encadeadas, das imagens, do musgo vivo e sagrado daquele flu-ir. Os nódulos assim se escondem, escondendo a radical ficcionalidade, a natureza de alegoria e metáfora: o narrador nos faz esquecer a atmosfera onírica, pastosa, irreal de tudo aquilo: a criação se esconde. Ele em muitos lugares nos convence da racionalidade, da lógica, da perspectiva dele, da recriação do passado: e tudo é somente clivagem, repetição que se esconde e literatura que aparece como memória (outro conceito inexistente em Proust), como o vivido, a história, o tempo real e histórico, o biográfico. Esse mesmo biográfico que Proust em “Contre Sainte-Beuve” desenvolveu como um engodo do crítico francês, mas ninguém se dá conta quando “estuda” a Busca. Ali não está, em nenhum momento e mais que qualquer outro “autor”, nada de biográfico, de vivencial. Em primeiro lugar, da mesma maneira que no “objeto cadeira” (ainda e sempre palavra) não há nada da palavra “cadeira”; em segundo, porque o vivido não se torna, “assim como foi”, numa narrativa: a narrativa tem lógicas próprias, e mesmo a mais fria descrição é somente algo separado daquilo que descreve: a ilusão historiográfica é uma marca que, se não des-obstruída, esconde a escrita, a ficcionalidade e sua própria condição.
  4. - Da mesma maneira que nenhum Deus está em nenhuma oração, realidade, céu, inferno, plano ou corpo, - o tempo, a memória, a história ou o vivido jamais estão em nenhum texto e, principalmente, no texto proustiano: estão lá somente como uma miragem do texto: sem essas miragens não há o texto: sem essas miragens não há o real.
  5. - A Busca não é a escritura de uma “vida lembrada”, mas a escritura de uma vida, a criação de uma vida, uma invenção essencial (é assim que o ser é). A tessitura não do recordado, mas o avesso do bordado ao se destecer, ou a conquista de Penélope, a ausência do tecido, a liberdade do destecer e do destecido enquanto tecido, a liberdade substancial do destecido: a Busca é um destecido: o tecido do esquecimento, não um positivista recordar, que é sempre um dizer e não um dizer-o-que-foi: a ilusão jurídica, policial, científica, a mesma ilusão historiográfica, não pode ser aplicada à literatura (ou à arte): as colméias do texto revelam o próprio ser: não é que as colméias do ser produzam as colméias do texto, mas que as colméias do texto re-velam o próprio ser.
  6. - A Busca não é circular: o fim não remete ao começo; também não é linear: é estruturalmente dissipativa; caos ordenando-se segundo nódulos precisos que falsamente se articulam; temporalidade delirante, onírica, mítica. Da mesma maneira que o “tempo do mundo” (todos os tempos das galáxias culturais) não é um tempo científico (físico, histórico, psicológico), mas essencialmente mítico, tempo de desdobramentos singulares no eixo de existência do imediato do presente (com os desdobramentos que criam o tempo como uma dimensão mítica e tríbia), o tempo proustiano é um desdobramento dissipativo onde nada realmente se relaciona com nada: o efeito de relação é uma ilusão narrativa.
  7. - Todo “conhecimento objetivo” ou “saber” que possa advir de uma obra literária é tão somente uma duplicação da própria teoria (Filosofia, Ciência) que a projeta na obra como uma substância dela e não como uma projeção.
  8. - Dizem que é preciso ter paciência para ler as compactas três mil páginas da Busca, mas não se trata de um livro comum. Da mesma maneira que não se lê a Bíblia de uma vez, a Busca exige uma vida, idas e vindas, trilhas e caminhos, perdições e achamentos: jamais uma releitura: a Busca não é jamais relida: é sempre lida.
  9. - A Busca não é um “retrato de uma sociedade”, “a descrição de uma época”, uma “biografia romanceada”, um “mergulho no universo da burguesia francesa”, um “exercício de memória”, um “exercício de leitura”, a “reconstrução da história de uma vida”: a Busca, assim como as “mitologias”, são desvendamentos do ser: assim como o real se constitui, assim como nós somos formatados, assim a Busca se des-dobra: des-vendar o próprio ser é a razão da sua existência.
  10. - A Busca é um móbile sem suporte, sem matéria, armado e em movimento, corrigindo a cada plano, num múltiplo diálogo, sua apresentação de existir. Com uma inteligência daquela leitura diz e desdiz sempre de maneiras diferentes, dependendo sempre do arranjo feito pela leitura, feita-construída pelos movimentos da Busca: sujeito autônomo, oscilação livre. Como a Busca é viva, a leitura pode mata-la: como é morta, sem forma, sem estrutura, vácuo des-animado, pode ser posta a viver. In-animada, quando se põe a viver não depende de nós; animada, comunga com as cristalizações do mundo mineral e só existe por nós. O morto ouvindo a vida; a vida amando a morte.
  11. - A obra de arte literária não é algo que conjuga os traços da virtualidade futura a partir do seu-ponto-de-criação, mas sempre do seu-ponto-de-leitura. É a vitória do nada sobre o tudo; a conquista do vazio sobre o objeto; o avanço do sujeito contra o limite; o frágil sucesso da literatura sobre o mercado; a superação da pequena-burguesia pela arte.
  12. - Marcel Proust é uma dobra vazia da Busca: ela é quem pode tentar explica-lo, preenche-lo, faze-lo viver, existir ou ter existido: jamais a Busca ser explicada ou preenchida por ele. Marcel Proust não existiu: é um possível personagem da Busca, uma dobra de alguma possível leitura.
  13. - A ilusão balzaquiana de Proust e dos proustianos resiste somente se mantido conceitos naturalizados como suporte crítico (Natureza, Sociedade, História). O retorno balzaquiano, a volta de caracteres, de personagens e de lugares (as específicas repetições de Balzac), na Busca, é uma leitura, uma aplicação metodológica (um vício crítico). O Swann do “primeiro volume” não é o Swann do “volume segundo”: e não é porque envelheceu, casou com Odete, ou porque é pai de uma chata: é outro: a densidade vazia da Busca constrói sempre outro (não caiamos na conversa do “narrador”: a ilusão dele é a mesma da crítica e a alegria das metodologias que encontram o que buscavam): não se envelhece como se envelhece na Comédia Humana: o retorno proustiano não é o retorno balzaquiano: as crenças de Balzac investiram a Comédia de uma “natureza historiográfica”, de uma “verdade de cartório” inextirpável por quase todas as leituras, mesmo as mais “esvaziantes”: na Comédia não há o vazio denso, o vácuo que atrai qualquer realidade, não há o contra Sainte-Beuve, o contra a história, o contra a natureza, o contra a língua: na Busca, tão cheia, tão plena, tão impada de tudo até a náusea, há somente brechas imensas onde corre o vento das linguagens da leitura. A nobreza ou a burguesia balzaquianas são estudáveis por marxismos, positivismos e teorias literárias; por economias, sociologias e estruturalismos; a nobreza ou a burguesia proustiana não existe: são dobras falsas, miragens textuais, vícios das críticas, das leituras e das historiografias.
  14. - O “eu” balzaquiano é o mesmo dos jornais, das ciências, da filosofia, do senso comum, da “literatura”: o “eu” da Busca mente: síntese e superação dos “pontos de vista”, é uma nulidade de ser que se torna sempre o “eu” do leitor: sempre fora: sempre além das páginas: como o fora das “Meninas” de Velásquez. É ali de fora que vem esse “eu”: esse eu é um fora: tudo na Busca está sempre fora.
  15. - No entanto há um Proust em Balzac, um horizonte de leitura, de literatura, de vazio e vácuo: quando ele deixa de ser “romancista”, “escritor”, “cronista da sua época”: da mesma maneira que o Flaubert de “Madame Bovary” e o Nerval de “Silvia”, Proust é o grande mestre de Balzac: aquele de quem nasce o melhor desses três escritores. Inverter a equação seria não compreender as direções literárias, sempre opostas, dispersivas, radiculares e múltiplas. Ao mesmo tempo não há a Busca sem mim (leitor, obsessivo numa busca qualquer): portanto, assim como Proust vem antes de Balzac, de Flaubert ou Nerval, venho eu antes de Proust.
  16. - Exatamente porque ali não há nada é que podemos ver tudo, ou ver o que sempre se quis ver, ou o que se disse que lá estaria para ver.
  17. - A “energia de decifração” e a “procura de essência” da Busca reduzem o universo a uma explosão de palavras, imagens, signos em choque, em fluxo, no tempo. O “resultado” holográfico da leitura é o vazio (sempre insuficiente): a densidade máxima anula o som, a luz, o significado, o significante: tudo é arrastado para não-ser: e assim a literatura se realiza: o que parece “retrato de uma época” se torna “buraco negro”: todas as outras realidades são arrastadas ali para dentro: poíésis.
  18. - Aquele que encontra a Busca vai perdê-la, mas quem perdê-la vai achá-la.
  19. - A Busca deve coincidir com uma busca para que essa busca infle o vazio, o vácuo que o atraiu. É essa busca que criará a Busca. Não há uma Busca de Proust: é o único, ou um dos primeiros, escritores sem busca, sem escritura, sem língua, sem matéria.
  20. - Uma literatura que nos assalta com uma superabundância de impressões: linguagem sem chaves: essa impossibilidade de achar o fio (labirinto sem centro, sem entrada e sem saída: sem labirinto), de agarrar o animal, conjugando conflitos, açulando forças, destravando obsessões, compondo linguagens, vozes, dis-cursos.
  21. - Na busca não há sequer um narrador: o Marcel é somente um dos múltiplos narradores articulados, camuflados em dobradiças, em aparências: há narradores até para frases articuladas: essa multiplicidade cria a ilusão de um único narrador: ilusão do próprio “autor”.
  22. - A hiperdensidade (o acumulo de duplicidades, de inversões, de fluíres, de multiplicações generalizadas, de descrições galopantes, de minúcias encadeadas, de articulações distantes ou muito próximas) cria o inverso do denso, do real, do concreto: faz desaparecer o ser: só na aparência há alguma coisa. Obscuridade em vez de iluminação; opacidade em vez de transparência, vazio em vez de cheio. A conseqüência para certa leitura é a transformação de tudo em esquemas, modelos, histórias: algo que facilite a leitura: como se ali houvesse alguma coisa e não todas as coisas, ou a possibilidade de todas as coisas: a própria virtualidade nua: entre o caos e o ser. Reduzir a Busca a uma história, a uma visão de mundo, a uma filosofia a uma “biografia romanceada”, facilita as coisas, reduz e anula a Busca a ser uma simples história, mais uma história. Ali há uma filosofia e uma visão de mundo vazias, em desforma de vácuo para atrair outros mundos, criando um espaço privilegiado de literatura: um hiperespaço, um lugar de todos os lugares, um imenso “buraco de Alice”.
  23. - A Busca olha para todos os pontos, quando olha. Por isso não há um olhar proustiano, mas uma “máquina insólita”, um olho-de-mosca ligado a uma seqüência infinita de olhos-de-mosca, movimento alucinante de ver que descria o olhar.
  24. - A bibliografia proustiana é uma questão à parte. Uma força a rasga em duas: há os que pré-sentem o nada, o vácuo que atrai toda realidade, re-significando-a, e os que se entregam descaradamente ao “romance biografia”. O que prevalece é esta segunda perspectiva, principalmente porque os que sentem o vácuo, o ser que atrai os seres, a literatura na sua essência, a alquimia realizada, a literatura (a arte) como o ritual da caça futura, magia que recria mundos, não conseguem articular uma concepção de literatura que escape aos “conceitos básicos” da ocidentalidade nem à idéia de literatura como algo-ligado a Língua, a História, a Gêneros, a Autores e Geografias.


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    ANO II, Nº 64 - AGOSTO - PORTO VELHO, 2002

     


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